O retratamento endodôntico continua a ser um dos maiores desafios na prática clínica diária, especialmente quando coexistem fatores como obturações deficientes ou anatomias complexas.
Neste caso clínico, aborda-se o tratamento de um primeiro molar superior (2.6) previamente tratado, no qual o planeamento e a escolha do instrumental foram determinantes para alcançar um resultado previsível.
Um paciente recorreu à consulta do Dr. Carlos González (Clínica EME), referindo desconforto constante no primeiro molar superior, previamente tratado endodonticamente e reabilitado com uma coroa.
Durante a exploração clínica, o paciente apresentou dor à percussão e à palpação, tendo-se observado um desajuste evidente da coroa.
No estudo radiográfico, observaram-se achados determinantes:
- Pino roscado no canal palatino.
- Obturação deficiente em todos os canais, especialmente nos vestibulares.
- Curvatura severa no canal mesiovestibular abaixo do nível da obturação.
- Suspeita de degrau que compromete o acesso ao terço apical.
Estes fatores condicionam um cenário complexo que exige uma estratégia de retratamento cuidadosa.
Fase de desobturação para acesso aos canais
O primeiro passo consistiu na remoção da coroa e do pino. Tratando-se de um pino metálico roscado, a sua remoção foi realizada de forma simples através de fricção com uma broca Endo-Z.
Uma vez obtido o acesso:
- Procedeu-se à limpeza da câmara pulpar.
- Otimizou-se a visualização para a localização do canal MV2, que não tinha sido previamente identificado.
Após a localização do canal MV2, o Dr. González utilizou uma lima ZXS (Zarc) para ampliar ligeiramente o acesso. Procedeu também à permeabilização com uma lima manual K 10 pré-curvada.
Este passo apresentou dificuldade devido à presença de um degrau antes da curvatura, o que obrigou a trabalhar com especial delicadeza.
Posteriormente, foi realizado o glide path mecânico com a lima Excalibur Glider PRO (Zarc)
Tratamento dos canais com limas reciprocantes
Para o tratamento de canais previamente obturados, foi utilizado o sistema Excalibur PRO E25 (Zarc), tanto para a remoção do material de obturação como para a preparação completa, uma vez que nenhum canal se encontrava totalmente conformado. Esta decisão baseou-se nas características da lima: secção em “S”, conicidade reduzida e movimento reciprocante.
Excalibur PRO® permite uma excelente capacidade de penetração e remoção do material de obturação antigo, seguindo fielmente a trajetória original do canal.
Para tal, é fundamental permitir que o instrumento avance sem pressão excessiva, com movimentos de “picoteio”, evitando bloqueios e assegurando uma progressão fluida no interior do canal.
o longo de todo o procedimento, é essencial uma irrigação abundante. Neste caso, o clínico utilizou hipoclorito de sódio com seringa e punta IrriFlex (Zarc), que, sendo flexível, se adapta melhor a situações de curvatura acentuada, bem como a permeabilidade apical com lima manual K 10. O canal palatino foi o único em que se procedeu ao aumento do calibre apical, utilizando a lima ApicalShaper Z30 (Zarc).
Após a preparação mecânica, foi realizada a prova de cones e, posteriormente, aplicado o protocolo de irrigação final com NaOCl, EDTA e NaOCl, finalizando com uma lavagem com soro fisiológico.
Obturação com selador biocerâmico
A obturação foi realizada com o selador biocerâmico NeoSEALER Flo (Zarc) e técnica de cone único, complementada com ligeira condensação com calor na porção coronal dos canais, uma vez que este selador permite tanto técnicas a frio como a quente sem alteração.
Por fim, foi colocada uma restauração provisória e o paciente foi encaminhado novamente para o seu médico dentista para a restauração definitiva.
Este caso clínico do Dr. Carlos González evidencia a importância de um diagnóstico preciso, bem como da escolha adequada do sistema de instrumentação para alcançar resultados previsíveis em retratamentos endodônticos.